Papa: suplicar o dom da unidade. Mártires coptas serão inseridos no Martirológio Romano

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Sua Santidade Tawadros II veio a Roma a convite do Papa Francisco para celebrar conjuntamente os 50 anos do histórico encontro entre Paulo VI e Shenouda II. Na manhã desta quinta-feira, o Santo Padre voltou a encontrar o Papa da Igreja Copta-Ortodoxa e delegação, seguido por um momento de oração na Capela Redemptoris Mater.

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

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No caminho ecumênico, é importante olhar sempre em frente, fazer memória e olhar para o alto agradecendo e suplicando o dom da unidade. E o anúncio de que os 21 mártires coptas serão incluídos no Martirológio Romano, “como sinal da comunhão espiritual que une as nossas duas Igrejas.”

Ao encontrar no Vaticano na manhã desta quinta-feira, 11, Sua Santidade Tawadros II e delegação, o Papa repassou o caminho ecumênico percorrido entre as duas Igrejas, destacando que  “agradecer e suplicar” é o objetivo desta comemoração do célebre encontro de 50 anos atrás, quando São Paulo VI recebeu na Basílica de São Pedro Shenouda III, então Patriarca da Igreja Copta-Ortodoxa.

“Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”: com esta mesma aclamação Francisco acolheu o Papa copta-ortodoxo de Alexandria, voltando a agradecer-lhe de coração – como o havia feito na Audiência Geral – por ter aceito o convite para vir a Roma e “comemorar juntos o histórico evento de 1973, bem como o décimo aniversário de nosso primeiro encontro em 2013”.

Sã impaciência e ardente desejo pela unidade

O Santo Padre começou falando da importância no caminho ecumênico de olhar sempre em frente, cultivando no coração uma “sã impaciência e um ardente desejo de unidade”, a exemplo de São Paulo quando afirma: “pres­cindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente” (Fil 3,13). Ao mesmo tempo, devemos perguntar quanto caminho ainda falta percorrer: “Quanta est nobis via?

Agradecer a Deus pelos passos dados e suplicar o dom da unidade

E neste processo, olhar em frente sim, mas também fazer memória, “sobretudo nos momentos de desânimo, para alegrar-nos com o caminho já percorrido e inspirar-nos no fervor dos pioneiros que nos precederam. Olhar para a frente e fazer memória”, mas “ainda mais necessário é olhar para o alto, agradecer ao Senhor os passos dados e pedir-lhe que nos dê o dom da tão desejada unidade”.

Encontro Paulo VI e Shenouda III marca abertura de um novo caminho

O Papa recorda que o encontro dos predecessores, realizado em Roma de 9 a 13 de maio de 1973, marcou uma etapa histórica nas relações entre a Sé de São Pedro e a Sé de São Marcos. Neste sentido, o presente encontro comemorativo tem o propósito de agradecer e suplicar:

Foi o primeiro encontro entre um Papa da Igreja Copta-Ortodoxa e um Bispo de Roma. Também marcou o fim de uma controvérsia teológica que remonta ao Concílio de Calcedônia, graças à assinatura, em 10 de maio de 1973, de uma memorável declaração cristológica comum, que mais tarde serviu de inspiração para acordos semelhantes com outras Igrejas Ortodoxas Orientais.

O encontro – observou Francisco – também deu origem à criação da Comissão Conjunta Internacional entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa, que em 1979 adotou os pioneiros Princípios para orientar a busca da unidade entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa, assinados pelo Papa São João Paulo II e pelo Papa Shenouda III, no qual se afirmava, com palavras proféticas, que “a unidade que imaginamos não significa a absorção de um pelo outro ou o domínio de um sobre o outro. Está a serviço de cada um para ajudá-lo a viver melhor os dons específicos que recebeu do Espírito de Deus”.

Fecundo diálogo teológico

Esta Comissão mista, por sua vez – destacou Francisco – abriu caminho para o nascimento de um fecundo diálogo teológico entre a Igreja Católica e toda a família das Igrejas Ortodoxas Orientais, que teve seu primeiro encontro em 2004 no Cairo, tendo como anfitrião Sua Santidade Shenouda:

Agradeço à Igreja Copta Ortodoxa pelo seu empenho neste diálogo teológico. Agradeço também a Vossa Santidade pela atenção fraterna que continua a dedicar à Igreja Copta Católica, uma proximidade que encontrou louvável expressão na criação do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Egito.

O Santo Padre chama a atenção para o fato de que o encontro dos “nossos ilustres Predecessores nunca deixou de dar frutos no caminho das nossas Igrejas rumo à plena comunhão”, e recordou que Tawadros veio encontrá-lo no Vaticano pela primeira vez, em 10 de maio de 2013, precisamente em memória do encontro realizado de 1973. Naquela ocasião, alguns meses após sua entronização e algumas semanas após o início do Pontificado de Francisco,  propôs celebrar o “Dia da Amizade entre coptas e católicos” todo dia 10 de maio, o que tem ocorrido desde então pelas duas Igrejas.

Laços de amizade alicerçados em Cristo

O laço de amizade que une as duas Igrejas, é então ilustrado pelo Papa com referência a um ícone egípcio:

Quando se fala de amizade, vem à mente o famoso ícone copta do século VIII, representando o Senhor descansando a mão no ombro de seu amigo, o santo monge Mena do Egito. Este ícone às vezes é chamado de “ícone da amizade” porque o Senhor parece querer acompanhar seu amigo e caminhar com ele. Do mesmo modo, os laços de amizade entre as nossas Igrejas se radicam na amizade do próprio Jesus Cristo com todos os seus discípulos, a quem ele mesmo chama de “amigos”, e que acompanha no seu caminho, como fez com os Peregrinos de Emaús.

Não poucas vezes o Papa Francisco usou a expressão “ecumenismo de sangue”, para explicar que um perseguidor não diferencia se o cristão é desta ou daquela Igreja, mas persegue pela fé  do fiel em Jesus Cristo. Neste sentido, reitera que no caminho de amizade copta-católica “acompanham-nos também os mártires”:

Não tenho palavras para expressar minha gratidão pelo precioso presente de uma relíquia dos mártires coptas mortos na Líbia em 15 de fevereiro de 2015. Esses mártires foram batizados não apenas na água e no Espírito, mas também no sangue, um sangue que é semente de unidade para todos os seguidores de Cristo.

Mártires coptas no Martirológio Romano

Então, o anúncio:

Tenho o prazer de anunciar hoje que, com o consentimento de Vossa Santidade, estes 21 mártires serão incluídos* no Martirológio Romano como sinal da comunhão espiritual que une as nossas duas Igrejas. Que a oração dos mártires coptas, unida à da Theotokos, continue a fazer crescer a amizade das nossas Igrejas, até o dia abençoado em que poderemos celebrar juntos no mesmo altar e comunicar ao mesmo Corpo e Sangue do Salvador, “para que o mundo creia” (Jo 17,21)!

*A recordar que não é a primeira vez que a Igreja Católica inclui não-católicos no Martirológio Romano. Já em 2001 alguns santos das Igrejas Ortodoxas e Ortodoxas Orientais que viveram após a separação das Igrejas foram incluídos no Martirológio, como os santos eslavos Teodósio e Antônio de Pecherska (século XI), Estêvão de Perm’ e Sérgio de Radonezh ( XIV) e o santo armênio Gregório de Narek (século X) proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Francisco em 2015.

Com informações e fotos VaticanNews

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