Festa da Divina Misericórdia: no coração de João Paulo II uma intensa devoção

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A Festa é uma obra divina, mas Ele quer que Santa Faustina se empenhe tanto em sua implantação (D. 74; 341; 463; 1581; 1680), como em seu incremento:

Na Minha festa, na Festa da Misericórdia, percorrerás o mundo inteiro e trarás as almas que desfalecem à fonte da Minha misericórdia. Eu as curarei e fortalecerei” (D. 206); “Pede ao Meu servo fiel que, nesse dia, fale ao mundo inteiro desta Minha grande misericórdia, que aquele que, nesse dia, se aproximar da Fonte da Vida, alcançará perdão total das culpas e penas” (D. 300a; cf. 1072). Santa Faustina abraça com toda a alma esta causa, pelo que exclama e reza: “Oh! como desejo ardentemente que a Festa da Misericórdia seja conhecida pelas almas!” (D. 505); “Apressai, Senhor, a Festa da Misericórdia, para que as almas conheçam a fonte da Vossa bondade” (D. 1003; cf. 1041). Jesus leva a sério a dedicação de Santa Faustina nesta missão: “Pelos teus ardentes desejos, estou apressando a Festa da Misericórdia…” (D. 1082; cf. 1530), e por isso o demônio procura atrapalhar o seu caminho (D. 1496).

Em 1935, no domingo de encerramento do Jubileu da Redenção, Santa Faustina participa da Eucaristia como se estivesse celebrando a Festa da Misericórdia; Jesus então se lhe manifesta como está na imagem e lhe diz:

“Essa Festa saiu do mais íntimo da Minha misericórdia e está aprovada nas profundezas da Minha compaixão. Toda alma que crê e confia na Minha misericórdia irá alcançá-la” (D. 420; cf. 1042; 1073).

Sabe, contudo, que talvez não participe em vida da sua celebração, mas nem por isso se desanima: “Eu sou apenas Seu instrumento. Oh! quão ardentemente desejo ver essa Festa da Misericórdia Divina que Deus está exigindo através de mim, mas se for a vontade de Deus e se ela tiver que ser comemorada solenemente apenas depois da minha morte, eu já agora me alegro com ela e já a comemoro interiormente com a permissão do confessor” (D. 711). Chega a tomar conhecimento – por iluminação divina – das disputas que se dão no Vaticano por causa desta Festa (D. 1110; cf. 1463) e dos avanços positivos a seu respeito através do Beato Pe. Sopocko (D. 1254). A Festa propriamente dita seria celebrada no Santuário de Cracóvia-Lagiewniki seis anos após a morte de Santa Faustina (1944).

A Festa da Divina Misericórdia e o quadro

Fica patente no Diário que existe uma relação muito estreita entre Festa da Misericórdia e veneração do quadro, proclamação da divina misericórdia, confiança nesta divina misericórdia, participação nos sacramentos (Eucaristia e Confissão) e remissão dos pecados (culpas e penas):

“A tua tarefa e obrigação é pedir aqui na Terra a misericórdia para o mundo inteiro. Nenhuma alma terá justificação, enquanto não se dirigir, com confiança, à Minha misericórdia. E é por isso que o primeiro domingo depois da Páscoa deve ser a Festa da Misericórdia. Nesse dia, os sacerdotes devem falar às almas desta Minha grande e insondável misericórdia. Faço-te dispensadora da Minha misericórdia. Diz ao teu confessor que aquela Imagem deve ser exposta na igreja, e não dentro da clausura desse Convento. Por meio dessa Imagem concederei muitas graças às almas; que toda alma tenha, por isso, acesso a ela” (D. 570); “Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Neste dia, estão abertas as entranhas da Minha misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Nesse dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecados sejam como o escarlate. A Minha misericórdia é tão grande que, por toda a eternidade, nenhuma mente, nem humana, nem angélica a aprofundará. Tudo o que existe saiu das entranhas da Minha misericórdia. Toda alma contemplará em relação a Mim, por toda a eternidade, todo o Meu amor e a Minha misericórdia. A Festa da Misericórdia saiu das Minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa” (D. 699); “Desejo conceder indulgência plenária às almas que se confessarem e receberem a Santa Comunhão na Festa da Minha misericórdia” (D. 1109).

Em 1936 o Senhor lhe pede que esta Festa seja preparada espiritualmente: “O Senhor me disse para rezar o Terço da Misericórdia por nove dias antes da Festa da Misericórdia. Devo começar na Sexta-feira Santa. Através desta novena concederei às almas toda espécie de graças” (D. 796; cf. 1059; 1209). A relevância desta Festa se pode depreender também da seguinte exortação e promessa: “As almas se perdem, apesar da Minha amarga Paixão. Estou lhes dando a última tábua de salvação, isto é, a Festa da Minha Misericórdia. Se não venerarem a Minha misericórdia, perecerão por toda a eternidade” (D. 965; cf. 998).

Não fechemos o nosso coração: ouçamos a voz do Senhor! Caro devoto e apóstolo, não deixe de participar da grande Festa da Divina Misericórdia em nosso Santuário ou onde lhe for mais conveniente! Prepare-se com uma boa confissão, traga o seu quadro e convide os seus parentes e amigos! Eis o tempo da graça, eis o dia da salvação!

Elementos essenciais da devoção à Divina Misericórdia

Ao longo dos séculos, o Espírito Santo tem suscitado na vida da Igreja diversos modos de responder à vocação comum da santidade (cf. LG 40). Diversas vezes, homens e mulheres inspirados pelo Senhor se tornaram autênticos modelos de vida, e puseram em destaque um ou outro aspecto da vida e verdade cristãs, dando início a diversas escolas de espiritualidade (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2683ss). Em outras ocasiões, o povo de Deus de uma determinada região se sentiu impelido a expressar a sua fé através de gestos, palavras e símbolos que, com o passar do tempo, se tornaram uma marca registrada de sua história religiosa, alimentando o seu amor a Deus e aos irmãos. Isto sem falar no fato de que a Sagrada Liturgia, cujo centro é a Celebração Eucarística, desde os primórdios do cristianismo também foi assumindo contornos particulares nesta ou naquela região do mundo (rito bizantino, sírio, ambrosiano etc.), mantendo um núcleo comum, mas com elementos rituais bem diversificados.

Liturgia, espiritualidade piedade popular pretendem ser, na vida da Igreja, expressão de uma mesma fé, esperança e caridade, e, ao mesmo tempo, fomentá-las no coração das pessoas, dos grupos, das comunidades, na diversidade de formas autenticadas posteriormente pela autoridade da Igreja. Como dons do Espírito, não devem estar em conflito, mas confluir para a edificação do Corpo de Cristo, para a encarnação do Reino de Deus no “aqui e agora” (hic et nunc) da história. Abusos e desvios hão de ser discernidos e corrigidos, na certeza de que pelos frutos se conhece a árvore, e igualmente na certeza de que o Senhor deseja dos batizados muito fruto, e frutos que permaneçam.

Neste contexto é preciso resgatar o exato valor das devoções, que deverão sempre estar em processo de purificação e renovação, como de resto toda a vida eclesial, sujeita às vicissitudes dos tempos e às fraquezas humanas. O recente Diretório sobre piedade popular e liturgia – Princípios e orientações, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (17/11/2001), sublinhou o “primado da liturgia” na vida cristã (n. 11), que se insere no âmbito daquilo que é “necessário” para nossa santificação. Ao mesmo tempo, porém, observa (nn. 7-10) que na vida eclesial há espaço para os “pios exercícios” (expressões públicas ou privadas de piedade cristã calcadas no espírito e na estrutura da Liturgia), para a “piedade popular” (manifestações cultuais derivadas da índole de um povo que tem fé), bem como para as “devoções”. Como entender o conceito de “devoção”? O Diretório assim se expressa:

“No nosso âmbito, o termo vem usado para designar as diversas práticas exteriores (por exemplo: textos de oração e canto; observância de tempos e visita a lugares particulares, insígnias, medalhas, hábitos e costumes), que, animadas por uma atitude interior de fé, manifestam um acento particular da relação do fiel com as Pessoas Divinas, ou com a Beata Virgem (…), ou com os Santos (…)” (n. 8 – destaques nossos). O documento faz referência a outros textos: Concílio de Trento (DS 1821-1825); Pio XII, Encíclica Mediator DeiSC 104; LG 50.

Vê-se que a Igreja admite a possibilidade de expressões devocionais dirigidas ao Senhor Deus (Pai, Filho e Espírito), focalizando um aspecto particular do Seu inesgotável mistério (ad intra e ad extra); assim, p. ex., temos a devoção ao Pai eterno, à Divina Providência, ao Sangue de Cristo, ao Senhor Bom Jesus, ao “Divino” (Espírito) etc. Se autênticas, brotam de um coração filial e eclesial, uma alma repleta de amor e gratidão, na simplicidade de quem confia não na força de suas palavras, ou na sofisticação das expressões, mas na graça divina. É por isso que o citado Diretório admite que haja uma “devoção à divina misericórdia” (n. 154), que, como outras devoções, deve caminhar estreitamente unida às celebrações litúrgicas da Igreja, sobretudo a Páscoa do Senhor – e que há de nos conduzir a uma profunda atitude de adoração, louvor e ação de graças, súplica e reparação ao Deus Uno e Trino, rico em misericórdia, particularmente ao Coração Divino-Humano do Verbo Encarnado, fonte inesgotável da misericórdia, e a um empenho efetivo em prol dos irmãos e irmãs, particularmente os sofredores, pecadores e agonizantes, através de obras de misericórdia.

Entre os anos 1931-1938 o Senhor se dignou revelar à Santa Faustina algumas novas formas devocionais que pretendem auxiliar o cristão a se aproximar mais e mais do mistério da Divina Misericórdia – terço, a novena, a hora, a imagem da Divina Misericórdia (esta, uma vez abençoada, torna-se um sacramental), e uma nova celebração litúrgica, a Festa da Divina Misericórdia (aprovada no ano 2000 e enriquecida com especiais indulgências). Podemos falar de “devoção” em relação ao mistério da Divina Misericórdia – que nasce do “culto” e frutifica no “apostolado”. A vida dos santos fala por si mesma – é uma teologia encarnada. Ora, Santa Faustina alimentava a sua vida cristã sobretudo da Sagrada Liturgia (vivia intensamente cada celebração do Ano Litúrgico), mas o Espírito não deixava de suscitar nela as mais variadas expressões devocionais relacionadas a Deus e aos Santos (ao Sagrado Coração de Jesus, à Paixão de Cristo, à sua Morte, a Maria, S. José, S. Miguel Arcanjo, S. Teresinha do Menino Jesus, as “Quarenta Horas” de Adoração – cf. Diário, nn. 40; 93; 150; 667; 914; 948; 1029; 1203; 1388; 1641; 1704; 1774), e de um modo especial ao mistério da Divina Misericórdia.

À guisa de conclusão: “devoção”, em seu genuíno sentido, nada tem que ver como “devocionalismo” vazio, supersticioso, desequilibrado, intimista, sectário. Há expressões exteriores de piedade que pretendem ser uma manifestação das virtudes da fé, esperança e caridade, ao mesmo tempo em que as confirmam e fortalecem. Redento M. Valabek, carmelita, ainda faz notar outra dimensão da autêntica “devoção” cristã: ela pretende indicar “o obséquio e o empenho devido em primeiro lugar a Deus”, ou seja, é uma “atitude habitual/permanente em uma pessoa que, com fervor, prontidão e constância, oferece a Deus o seu serviço expresso em várias formas”, chegando em algumas circunstâncias ao “sacrifício da própria vida” (DizionariodiMistica, Libr. Editr. Vaticana, 1998, p. 408). Santo Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, sublinha que um ato de devoção inclui particularmente a pronta oferta da própria vontade a Deus (cf. S. Th. II-II, q. 82).

Oxalá se multiplique, aqui na terra, o número de devotos da Divina Misericórdia, que, no céu, é a delícia e êxtase dos santos!

São João Paulo II e a Misericórdia

Os primeiros contatos de Karol Wojtyła com a mensagem da Misericórdia, comunicada por Jesus à Santa Faustina Kowalska, provavelmente aconteceram em sua juventude, no tempo dos seus estudos no seminário clandestino de Cracóvia (1942-1946). A respeito desse tempo, ele testemunhou na sua última viagem a Polônia, quando consagrou o Santuário da Divina Misericórdia: “Muitas das minhas recordações pessoais se relacionam com este lugar. Eu vinha aqui, sobretudo, durante a ocupação nazista, quando trabalhava no estabelecimento Solvay, situado perto daqui. Ainda hoje me recordo do caminho (…) que eu todos os dias percorria para ir trabalhar nos diversos horários, com os sapatos de madeira nos pés. Eram assim os sapatos naquela época. Como era possível imaginar que aquele homem com sapatos de madeira, um dia teria consagrado a basílica da Misericórdia Divina, em Łagiewniki de Cracóvia?”.

Foi João Paulo II que, em 1967, como cardeal, concluiu o processo informativo para a causa de beatificação da Irmã Faustina. Anos depois, eleito Papa, celebrou a beatificação (1993) e a canonização (2000) dessa religiosa. A ela, na celebração da beatificação, dirigiu a saudação: “Ó Faustina, quão maravilhoso foi o teu caminho! (…) É verdadeiramente maravilhoso o modo pelo qual a sua devoção a Jesus Misericordioso se difunde no mundo contemporâneo e conquista tantos corações humanos!”. E na canonização, olhando para o futuro da Igreja e da humanidade, afirmou: “a luz da misericórdia divina, que o Senhor quis como que entregar de novo ao mundo através do carisma da Irmã Faustina, iluminará o caminho dos homens do terceiro milênio”.Bento XVI testemunhou, em várias ocasiões, a respeito dessa relação do Pontificado do seu predecessor com o Mistério da Divina Misericórdia: “Como Irmã Faustina, João Paulo II fez-se apóstolo da Misericórdia Divina. (…) A sua mensagem, como a de Santa Faustina, reconduz (…) ao rosto de Cristo, revelação suprema da misericórdia de Deus. Contemplar constantemente esse Rosto: essa é a herança que ele nos deixou, e que nós com alegria acolhemos e fazemos nossa” (Festa da Misericórdia, 2008).

Em outra ocasião, Bento XVI afirmou: “O mistério de amor misericordioso de Deus esteve no centro do pontificado deste meu venerado Predecessor. Recordamos, em particular, a Encíclica Dives in Misericordia, de 1980, e a dedicação do novo Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, em 2002. As palavras que ele pronunciou nesta última ocasião foram como que uma síntese do seu magistério, evidenciando que o culto da Divina Misericórdia não é uma devoção secundária, mas dimensão integrante da fé e da oração do cristão” (Regina Caele, 23.04.2006).

Misericórdia ‒ minha tarefa primordial

João Paulo II foi eleito papa em 1978 e apenas dois anos depois (1980) ele publicou a encíclica Dives in Misericordia (Deus, Rico em Misericórdia) dedicada exclusivamente à Divina Misericórdia. Nela, ele incentiva os cristãos à confiança na ilimitada Misericórdia Divina: “Em nenhum momento e em nenhum período da história – especialmente numa época tão crítica como a nossa – a Igreja pode esquecer a oração, que é o grito de apelo à Misericórdia de Deus perante as múltiplas formas de mal que pesam sobre a humanidade e a ameaçam… Quanto mais a consciência humana, sucumbindo à secularização, perder o sentido do significado próprio da palavra ‘misericórdia’ e quanto mais, afastando-se de Deus, se afastar do mistério da misericórdia, tanto mais a Igreja terá o direito e o dever de fazer apelo ao Deus da Misericórdia com grande clamor“(DM 15).

No ano seguinte (1981) ao celebrar a solenidade de Cristo Rei, no Santuário do Amor Misericordioso, em Roma, reafirmando a mensagem dessa encíclica, João Paulo II revela: “Desde o princípio do meu ministério na Sé de São Pedro, em Roma, considerava esta mensagem como minha tarefa primordial. A Providência confiou-a a mim na situação contemporânea do homem, da Igreja e do mundo. Poderia também se dizer que precisamente esta situação atribuiu-me como dever essa mensagem, como minha tarefa ante Deus…”.

João Paulo II e a Festa da Misericórdia

A instituição da Festa da Misericórdia para toda a Igreja foi muito aguardado pelos devotos da Divina Misericórdia. A expectativa crescia na medida em que os fiéis em todo o mundo iam tomando consciência de quanto o mundo têm necessidade da misericórdia Divina. Por fim, no Jubileu do ano 2000, João Paulo II pôde solenemente proclamar que o primeiro domingo após a Páscoa de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de Domingo da Divina Misericórdia” (30.04.2000).

Incluindo oficialmente a Festa da Misericórdia no calendário litúrgico, na mesma data em que canonizou Santa Faustina, João Paulo II nos recorda que nenhum cristão está isento do diálogo de acolhida e partilha da misericórdia: Cristo ensinou-nos que o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a ter misericórdia para com os demais. (…) A Sua mensagem de misericórdia continua a nos alcançar através do gesto de Suas mãos estendidas rumo ao homem que sofre. Foi assim que O viu e testemunhou aos homens de todos os continentes a Irmã Faustina (…) que fez da sua existência um cântico à misericórdia.(…) A canonização da Irmã Faustina tem uma eloquência particular: mediante este ato quero hoje transmitir esta mensagem ao novo milênio. Transmito-a a todos os homens para que aprendam a conhecer sempre melhor o verdadeiro rosto de Deus e o genuíno rosto dos irmãos“.

Sobre essa data histórica e de importância incalculável, testemunhou o Papa Bento XVI: “O servo de Deus João Paulo II estabeleceu que em toda a Igreja o Domingo depois da Páscoa, além de ser Domingo in Albis, fosse denominado também Domingo da Misericórdia Divina. (…) Na realidade a misericórdia é o núcleo da mensagem evangélica, é o próprio nome de Deus, o rosto com o qual Ele se revelou na Antiga Aliança e plenamente em Jesus Cristo, encarnação do Amor criador e redentor. Este amor de misericórdia ilumina também o rosto da Igreja, e manifesta-se quer mediante os Sacramentos, em particular o da Reconciliação, quer com as obras de caridade, comunitárias e individuais. Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que Deus sente pelo homem (…). Quando a Igreja deve reafirmar uma verdade menosprezada, ou um bem traído, fá-lo sempre estimulada pelo amor misericordioso (…). Da misericórdia Divina, que pacifica o coração, brota depois a paz autêntica no mundo, a paz entre os povos, culturas e religiões diversas” (Bento XVI, Festa da Misericórdia, 2008).

Sede testemunhas da misericórdia!

Em 17 de agosto de 2002, na mesma ocasião da consagração do Santuário da Misericórdia de Łagiewniki, Cracóvia – Polônia, João Paulo II consagrou o mundo à Divina Misericórdia. Nessa ocasião disse palavras de imensa gravidade que não podemos ignorar: “Quanta necessidade da misericórdia de Deus tem hoje o mundo! Em todos os continentes, do profundo do sofrimento humano, parece que se eleva a invocação da misericórdia. Onde predominam o ódio e a sede de vingança, onde a guerra causa o sofrimento e a morte de inocentes, é necessária a graça da misericórdia para aplacar as mentes e os corações, e para fazer reinar a paz. Onde falta o respeito pela vida e pela dignidade do homem, é necessário o amor misericordioso de Deus, a cuja luz se manifesta o indescritível valor de cada ser humano. É necessária a misericórdia de Deus para fazer com que toda a injustiça no mundo encontre o seu fim no esplendor da verdade… Por isso hoje, neste Santuário, desejo confiar solenemente o mundo à Misericórdia Divina. Faço-o com o desejo ardente de que a mensagem do amor misericordioso de Deus, aqui proclamado por intermédio de Santa Faustina, chegue a todos os ambientes da terra e cumule os seus corações de esperança. Esta mensagem se difunda deste lugar em toda a nossa Pátria e no mundo. (…) É necessário transmitir ao mundo este fogo da misericórdia. Na misericórdia de Deus o mundo encontrará a paz, e o homem a felicidade!“. (…) Confio-vos esta tarefa a vós. Sede testemunhas da misericórdia!”.

Santo Súbito

Não foi sem razão que o Papa João Paulo II morreu precisamente no dia litúrgico do Domingo da Misericórdia. A respeito dessa singular coincidência testemunhou o Papa Bento XVI, em 30.4. 2008: “de fato, o seu longo e multiforme pontificado tem aqui o seu ápice; toda a sua missão ao serviço da verdade sobre Deus e sobre o homem e da paz no mundo resume-se neste anúncio, como ele mesmo disse em Cracóvia-Łagiewniki em 2002: “Fora da misericórdia de Deus não há qualquer outra fonte de esperança para os seres humanos”.

Para a oração do Regina Caeli da Festa da Misericórdia daquele ano (2005) João Paulo II tinha preparado o seu último texto que foi lido no final da celebração da Santa Missa diante da imensa multidão reunida na Praça de São Pedro para a sua despedida. Sobre esse texto, testemunha, na Festa da Misericórdia do ano seguinte, o seu sucessor: “Meditando sobre a misericórdia do Senhor, que se revelou de modo total e definitivo no mistério da Cruz, volta-me à mente o texto que João Paulo II tinha preparado para o encontro com os fiéis no dia 3 de abril, domingo in Albis do ano passado. Nos desígnios divinos estava escrito que ele nos deixasse precisamente na vigília daquele dia, sábado, 2 de abril, todos recordam bem, e por isso não pôde pronunciar aquelas palavras, que agora me apraz repropor-vos (…). O Papa [João Paulo II] tinha escrito assim: ‘À humanidade, que por vezes parece estar perdida e dominada pelo poder do mal, do egoísmo e do medo, o Senhor ressuscitado oferece como dom o seu amor que perdoa, reconcilia e volta a abrir o espírito à esperança. É um amor que converte os corações e dá a paz’. O Papa [João Paulo II], neste último texto, que é como um testamento, acrescentou: ‘Quanta necessidade tem o mundo de compreender e de acolher a Misericórdia Divina!‘”.

Com a canonização do Papa João Paulo II chegou a hora de transmitir esse fogo da misericórdia em todas as dioceses e comunidades eclesiais do Brasil, e não só do Brasil, mas de toda a América Latina! Desde a Conferência de Aparecida somos conclamados, toda a Igreja Latino-Americana, para uma Missão Continental! Que ninguém ignore que Deus é Rico em Misericórdia, que ninguém tenha medo de se aproximar Dele, de mostrar-Lhe todas as feridas e receber a Sua paz.

Que essa mensagem transmitida a nós por João Paulo II, e que segue ecoando na vida e nas palavras do Papa Emérito Bento XVI e do Papa Francisco, não fique sem uma generosa resposta do nosso coração. Sejamos testemunhas da Misericórdia, como nos pediu João Paulo II.

Papa Francisco e a Divina Misericórdia

1. Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!
Discurso do Papa Francisco no encontro com os representantes dos meios de comunicação social – Cidade do Vaticano, 

3. Na Igreja inteira é o tempo da misericórdia (Quaresma). Esta foi uma intuição do beato João Paulo II. Ele teve a “perspicácia” de que este era o tempo da misericórdia. Pensemos na beatificação e canonização da Irmã Faustina Kowalska; em seguida, introduziu a festa da Divina Misericórdia.
Discurso do Papa Francisco aos Párocos da Diocese de Roma – Sala Paulo VI, 6 de Março de 2014

4. No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que São João Paulo II quis dedicar à Misericórdia Divina, encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado. 
Homilia do Papa Francisco – Praça de São Pedro – II Domingo de Páscoa (ou da Divina Misericórdia), 27 de Abril de 2014

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