Dom José Luiz Ferreira Salles, CSsR, enviou aos diocesanos uma Carta na qual ele, a menos de um ano do período eleitoral, adverte as suas ovelhas para algumas realidades pertinentes ao período eleitoral nos municípios da diocese em 2016.

“Votar em uma pessoa é transferir para ela um poder que pertence a cada cidadão ou cidadã”. Assim o bispo se dirige aos seus diocesanos, no começo da carta. Assuntos como corrupção, participação popular e consciência política estão presentes nos escritos de Dom José.

Ponto alto da Carta se dá quando o bispo apresenta critérios de discernimento sobre os candidatos: respeito, compromissos com a ética na política, a defesa da vida, a família e seus direitos e a liberdade de iniciativas são alguns deles.

O bispo chama a atenção ainda para o perigo da divisão dentro da Igreja e da comunidade fruto de um fanatismo eleitoreiro. A carta orienta quanto aos espaços a serem ou não ocupados pelos candidatos dentro da Igreja.  Ao final, manifesta seu desejo de que que a Carta seja reproduzida em grande número a fim de que chegue o texto a todos os fieis, e decreta que o texto seja transcrito no Livro de Tombo de cada paróquia.

Confira a íntegra da Carta.

MENSAGEM DE DOM JOSÉ LUIZ FERREIRA SALLES, CSsR, EM VISTA DAS ELEIÇÕES 2016

“A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar!” (Dom Hélder Câmara)

Reverendíssimos Padres,
Estimadas Religiosas
Amado Povo de Deus desta Igreja Diocesana

Em vista das eleições 2016, a campanha eleitoral já é assunto de destaque nas conversas das feiras, bodegas, praças… e, como não poderia deixar de ser, também em nossas igrejas. Sobretudo por serem municipais, as eleições 2016 despertam maior interesse e envolvimento da população. Pudera! É no município que a gente mora, trabalha, estuda, educa os filhos, faz compras, se diverte, busca atendimento de saúde, coleta lixo, trata de água e esgoto, precisa de iluminação pública, transporte, segurança e todos os serviços necessários à vida cotidiana. A política do município tem significado concreto no dia-a-dia das pessoas. E é neste âmbito que começa a participação cidadã, tão importante para todos nós.

Outra característica bem própria das eleições municipais é a relação de proximidade que os candidatos se esforçam para estabelecer e/ou estreitar com os eleitores. O risco é fazer entender o voto como um gesto para satisfazer um amigo e garantir os benefícios de ser “conhecido” de uma autoridade. Não raro, depois da campanha, nada mais resta senão abraços, sorrisos e acenos, enquanto o trabalho pelo desenvolvimento do município fica relegado ao assistencialismo minguado e a favores pessoais limitados.

Leia, observe, analise e participe!

Julgo ser oportuno lembrar que, ao votar em uma pessoa, transferimos para ela um poder que pertence a cada cidadão e cidadã. É como se passássemos uma procuração para que esta pessoa decida em nosso nome, por um período de quatro anos. Por isso, não basta reconhecer os candidatos pelas fotografias. Precisamos saber a quais grupos estão ligados, quais interesses representam ou quais tem sido as suas lutas políticas. Este momento das eleições municipais é uma excelente oportunidade para aprofundar e melhorar a participação responsável de todos os cidadãos nos destinos de nossas cidades. Portanto, seja responsável! Pense muito bem antes do seu voto! Leia, observe, analise e participe!

Embora a cultura da corrupção perpasse nossa história política, é nosso papel – e já chegou o tempo – de mudarmos essa cultura, pois a corrupção pessoal e estrutural que convive com o atual sistema político brasileiro e vem associada à estrutura econômica, acentua e legitima as desigualdades. Cabe a nós, cidadãos e cidadãs, exercermos dignamente os nossos direitos e zelar para que a Lei 9.840 – Lei da Ficha Limpa – contra a corrupção eleitoral, seja aplicada. Ela ajuda a assegurar a lisura tanto na campanha eleitoral quanto no momento das eleições. Ela proíbe os políticos, já condenados por crimes eleitorais ou outros, de se candidatarem, pelo tempo previsto na sua condenação. A aprovação dessa lei de iniciativa popular contou com expressiva participação das comunidades e organizações de nossa Igreja. É preciso ter credibilidade para representar o povo, legislar, governar e administrar o patrimônio e o dinheiro públicos.

Neste período que antecede as eleições, exortamos a todos para que participem dos debates e reflexões sobre os programas dos partidos e as qualidades dos candidatos. Sejam prudentes, respeitosos e fraternos em suas afinidades e em suas divergências. Coloquem-se dispostos a discernir, serena e responsavelmente, para tomar suas decisões.

Discernir, serena e responsavelmente

Com o propósito de iluminar as consciências, elencamos alguns critérios de discernimento sobre os candidatos. Observe se eles tem em suas práticas eleitorais:

1. Respeito ao pluralismo cultural e religioso, sem fazer discriminações de religiões ou culturas, evitando privilégios de uns em detrimento de outros.
2. Compromisso com a ética na política e na vida. Um candidato sério prima por uma vida pública pautada na retidão, honestidade e transparência nas palavras e ações, sobretudo aquelas que são realizadas em favor do povo que ele representa e é chamado a favorecer com seu serviço em prol de todos.
3. Compromisso decisivo na defesa da vida, desde a sua concepção até o seu declínio natural. Um candidato favorável ao aborto, à eutanásia ou outras formas de desvalorização da vida não merece o seu voto.
4. Compromisso decisivo na promoção e defesa da família e seus direitos inalienáveis.
5. Compromisso com a liberdade de iniciativas no campo da educação, da saúde e da ação social, em parceria com as organizações comunitárias.
6. Qualidades imprescindíveis em seu histórico de vida, tais como honestidade, competência, transparência e vontade de servir ao bem comum.

A Igreja não tem partido! Mas, como instituição, propõe-se a fornecer critérios éticos para as escolhas e ação política. São eles: a justiça, a solidariedade, a dignidade humana, o respeito à pessoa, a defesa e a inclusão dos membros mais frágeis e desprotegidos da sociedade. Coerente com isso, a Igreja ensina que a política não deve ser o processo de afirmação dos grandes egoísmos, nem da cultura de morte, nem das discriminações. É sua responsabilidade formar a consciência ética e estimular os cristãos leigos e leigas a participarem ativamente da política como cidadãos deste mundo.

O perigo da divisão

Lembro aqui a vigilância dentro da Igreja para que tenham o cuidado necessário, para que a disputa político-partidária na comunidade não venham a ser, em nossas pastorais, movimentos e serviços, causa de divisão e enfraquecimento do projeto de evangelização na paróquia e na diocese. Jamais permitamos que a “politicagem eleitoreira”, causa de grandes embates, intrigas e males maiores na comunidade, afetem o nosso projeto maior: o Reino de Deus entre nós. Lembremos das palavras de Jesus: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não resistirá.” (Mc 3,24)

Na encíclica Deus caritas est (Deus é amor), o papa Bento XVI exorta os cristãos leigos e leigas a assumirem compromissos na política, também partidária (n.29). Esta tarefa é de competência exclusiva dos fieis leigos e leigas, e não dos clérigos. É orientação da Igreja Católica Apostólica Romana que os membros do clero, em vista da sua missão religiosa, abstenham-se de exercer cargos políticos ou de militar nos partidos (cf. CDC 285, § 3). A política partidária é espaço de atuação dos cristãos leigos e leigas, que neles podem exercer melhor o seu direito e dever de cidadania, orientados pelos princípios da fé e da moral cristã e contribuir para edificação do bem comum.

Respeito, admiração e cuidado

Portanto, aos fieis leigos e leigas que, com dignidade, se candidatarem a cargos públicos, o nosso respeito e admiração. O Pároco ou o Administrador Paroquial e a própria comunidade de fé disponham-se a acompanhá-los de perto durante a campanha e também depois, sobretudo aos que forem eleitos.

Também é importante salientar que, caso o candidato exerça alguma função de destaque na paróquia ou na comunidade, o Pároco ou o Administrador Paroquial deverá orientar para que, durante o período da campanha eleitoral, afaste-se da função que exerce, para não ser mal interpretado, para que ninguém se sinta induzido a votar nesta ou naquela pessoa, a fim de não criar mal estar na comunidade de fé e entre os batizados.

Os templos e os lugares de culto, bem como os eventos religiosos, não devem ser usados para propaganda eleitoral partidária (Lei 9.504, art. 37, § 40). A Igreja Católica Apostólica Romana valoriza a liberdade de consciência e as escolhas autônomas dos cidadãos. A religião não deve ser usada como “cabresto político”, e as comunidades da Igreja não devem ser transformadas em “currais eleitorais”. Os Párocos e os Administradores Paroquiais cuidem para que os espaços da paróquia e comunidades não sejam utilizados para atividades que possam denotar privilégio ou proteção a alguma sigla partidária. Por isso, não se permita aos candidatos que se utilizem desses espaços. Assim sendo, nas missas, celebrações, reuniões ou algum outro evento, não se dê a palavra a candidatos nem se permita que circulem panfletos ou qualquer tipo de propaganda eleitoral. Também não se forneçam listas de endereços ou de contatos dos membros da paróquia e de seus vários conselhos e coordenações.

Decreto que esta nossa mensagem seja reproduzida em grande número e entregue ao povo de Deus em cada paróquia e comunidade desta Igreja Particular. Seja ainda devidamente registrada no Livro de Tombo de cada paróquia.

Que o Espírito Santo nos inspire tudo o que for bom e justo, para a glória de Deus Pai, e que o Evangelho de Cristo seja luz para os nossos passos. Empenhemo-nos na tarefa de ajudar a construir uma sociedade justa, fraterna e solidária.

Por intercessão de São José, nosso Padroeiro, invoco sobre todos os diocesanos a minha bênção de Pastor.

Pesqueira, 11 de novembro de 2015.

Dom José Luiz Ferreira Salles, CSsR
Bispo Diocesano de Pesqueira

PasCom Diocesana

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