Em entrevista ao Vatican News, o arcebispo de Porto Alegre (RS), dom Jaime Spengler, falou sobre a apelação julgada nesta quarta-feira, 24, pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, relativa à condenação do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz Sérgio Moro, em julho de 2017, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso de um apartamento tríplex recebido como propina da empreiteira OAS.

É importante observar que dom Jaime havia falado ao Vatican News antes do julgamento em segunda instância, que, ontem, confirmou por unanimidade a condenação de Lula e ampliou a sua pena de prisão. Justamente por terem sido ditas antes do julgamento é que são relevantes as considerações do arcebispo, dado que elas refletem não uma posição decorrente da condenação, mas sim a esperança que havia e continua havendo, entre grande parte dos cidadãos brasileiros, de uma mudança profunda na história política do país. No cerne desta mudança há uma premissa que não pode jamais ser deixada de lado, sejam quais forem as circunstâncias, conforme bem resumiu o prelado: “Justiça deve ser feita”.

Dom Spengler comentou:

“Há muito tempo nós vivemos uma espécie de polarização, ‘nós e eles’. Isto certamente não nos tem ajudado (…) Se há elementos que realmente comprometem a atuação de quem era presidente da República e que, por isso, mereçam uma condenação, que assim se faça. Nós precisamos chegar a uma conclusão desse processo todo. Certamente, temos ânimos acirrados, temos uma situação delicada, mas justiça deve ser feita. A justiça vale para todos”.

Quanto às manifestações contra e a favor da condenação do ex-presidente, dom Jaime as considera parte da liberdade de pensamento e de expressão. Enfatizando que essas manifestações devem ocorrer “dentro de um espírito marcado pela paz”, ele observou:

“Medo não tenho (…) A democracia é caracterizada por essa possibilidade de ampla manifestação de todos os setores da sociedade”.

O resultado do julgamento de ontem, de qualquer modo, está longe de ser o final do necessário e urgente processo de renovação moral da sociedade brasileira. Dom Jaime prosseguiu:

“O momento é difícil, o momento é desafiador, mas a possibilidade do novo está nas mãos da atual geração que faz a vida da sociedade. Então, todos nós aqui temos uma responsabilidade muito grande. Não podemos permitir que nos roubem a esperança de que, juntos, num espírito pacífico, possamos encontrar indicações capazes de superar o momento difícil que nós vivemos e, assim, construir também juntos indicações capazes de proporcionar vida melhor para aqueles que virão depois de nós”.

Citando uma frase do Papa Francisco, o arcebispo da capital gaúcha sintetizou:

“Não podemos permitir que nos roubem a esperança”

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